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O Homem da Madrugada
Sunday, April 11, 2004
  o alarme que te vejo ter em mim olhando a frescura do rio
à passagem dos carros na rua ribeirinha tenho eu também
não penses ser sozinha na consciência da aparição
ou no saber que há algo mais que as meras conversas
ditas ao vento ou que essas conversas são mais que tudo
2000-06-30
 
  Dança suave e lentamente
Desdobras os olhos pela rua
De repente a música pára a água da
Cidade e vibra por momentos um suspiro no ar.
Nada mexe. Só tu e talvez eu. Passa um pássaro
As asas batem devagar. O sol anoitece nas coisas
Paradas. O mundo vibra no seu silêncio a expectativa.
Aproximamo-nos — que segredos guardas?
— que íntimas esperanças de mim tens?
(Eu de ti tenho a despojada esperança de me quereres. Nada mais.)
Os teus olhos vibram na fé que tenho da chama intensa dentro de ti.
A cidade é bela. Carros parados, pessoas de pé no ar à espera do fim do momento.
E ele não acaba mais, pelo menos é eterno o desejo nosso de o manter.
As árvores tremem de antecipação. Passa um vento estranho. Sei que estás aí.
Apenas as nossas bocas comunicam num beijo feito de esperança e antecipação.
Apenas os nossos corpos se tocam no momento terno e frágil da cidade.
Apenas corpos. Mas apesar disso há um instante. Chama intensa e rápida,
Acorde pleno na tarde, revelação na disposição perfeita das coisas.
Beijo intenso, olhos nos olhos. E por fim a cidade recomeça seu viver.
Olhamos bocas já fechadas, sorrimos. Nunca será eterno, passa gente por nós
Indiferentemente. Nunca será eterno. Os olhos continuam a vibrar
À luz dourada e quente do anoitecer. A avenida mexe-se em vento banal.
É bela. Olhamos os nossos olhos. (Mais logo vamos ver dentro de nós
O vazio de já ter acabado aquele momento. E choraremos.) Mas até em tempo de magoar
Vou tentar sempre sentir entre as rosas que passam na estrada
A eterna doçura de te ver entre corpos nos olhos que brilham
Anoitecendo na cidade. Aqui estás tu. Sorrimos.
2000-07-05
 
Wednesday, April 07, 2004
  Anoitecer

As luzes da cidade vão-se apagar
Quando chegar a noite como um gongo
Cavo, grave, ecoando pelo espaço todo
E a tarde calma terminar o seu crepúsculo.

Vejo sentado na varanda o tremer
Da luz ao fim da rua lá ao fundo,
E no rio entra um barco escuro de chumbo
E a outra banda escorre em montes suas luas.

E choro baixinho ao som dos carros,
Passam passos e vozes e ecos dolorosos,
Risos doutras vidas que não invejo

Pois não vale a pena pensar onde
Estaria se não aqui nesta varanda
A ver anoitecer esta cidade
que amo e dói.

2000-01-27
 
  É uma cidade distante
Esta que me aparece
Nesta tarde sem nome
Neste dia sem data
Neste rosto que chora.

A ponte parece uma outra ponte
E nem o Tejo tem o sabor que lhe encontrei
Noutros dias mais felizes.
O rio é um rio qualquer que passa
As pessoas são estrangeiras
Eu não me encontro aqui
Lisboa pegou em si
E partiu para muito longe.

Vou partir também
Vou procurá-la
E ver se ainda lá estás tu
À minha espera
Nessa ilha mítica
Onde a cidade aportou.

2001-07-10
 
  partirás de novo
nesta noite já gasta
em que as rosas murcharam
e as luzes já fartam

partirás de novo
já cansado de amor
sozinho e perdido
nesta noite fechada

partirás de novo
quando o Tejo é apenas
uma poça já sem água

estás cansado,
magoado, torturado,
ferido e acabado,
sem sorriso e sem amor
com as esperanças desfeitas,
olhos ensanguentados,
a rede de luzes da madrugada
e os autocarros que nela se equilibram
são venenos mordazes que te traçam
o coração e o desfazem

mas,
vais partir,
de novo lançarás o barco ao mar
em busca dessa outra foz
desse outro Tejo
que reflecte essoutra Lisboa
serena, luminosa,
cheia de vibração de água
e de ruas saborosas
em que nós nos banharemos
de novo

talvez nas ruas dessa cidade perdida
te encontre de novo
sem as teias infames da noites
cheios da manhã nova que nos enche
e nos anima

2001-07-10
 
  Olisipografia

À luz escura do quarto
nesta noite parada
com o olhar calado
colo os teus retratos
numa folha de papel
como pedaços perdidos
de uma folha desfeita.
Com esquadro te divido,
com risco decidido te ligo
as longínquas avenidas
que te atravessam
a alma.
Leio os poemas
dos tantos poetas
que te escreveram
e aponto ao lado
a rima e a métrica
da tua alma.
Olho pela cortina
que tapa a janela,
vejo vagamente o Tejo
e suspiro fatigado.

Saio sozinho. Chove.
Um carro ia-me molhando.
Ando-te pelas ruas escuras da noite.
Luzes amarelas iluminam devagar
o interior dos autocarros.
Chove mais. Vislumbro-te
a alma por momentos,
divagando num canto qualquer,
mas não a persigo, não a apanho.
O Tejo, os cacilheiros,
a lua na água como peixes,
a ponte, os comboios, as lojas;
pessoas, água e chuva,
que molha os chapéus abertos
como flores das cores do trânsito.
A cidade inteira esconde-se
em todas as ruas
e na outra margem
uma luz tremeluz talvez.
Não te sei ver toda em tudo
e a tua alma escapa-me da mão
como amada que desaparece
em cada esquina.
Volto a casa e penduro o casaco molhado.

No dia seguinte amanhece e Lisboa acorda antes de mim.
Atendo o telefone e saio a correr ter com quem me chama.
Um rádio dá uma música bonita no café onde chego.
Ela está sentada na esplanada a mexer a colher na chávena.
Olha-me e sorri sem parar de mexer o café.
Os outros clientes conversam na calma esplanada.
Passam pessoas na rua como todos os dias ou talvez não.
Sento-me. Bebo um café. Conversamos.
Pagamos. Levantamo-nos. Vamos passear.
O som da música bonita acompanha-me.
Os restos da água da noite mantêm-se na borda da estrada.
O sol reflecte-se nas poças como nas árvores do Rossio,
o Chiado e a Baixa olham o Tejo
e um cacilheiro que passa vagaroso
atravessa o prateado da água azul
do rio ao sol daquela manhã Lisboa.
Passam pessoas rindo por nós,
Como estudantes numa tarde de Verão.
Ou passam preocupadas correndo
Ou parando ao sinal vermelho,
Para deixar passar o trânsito.
Um homem engravatado põe uma
moeda envergonhada numa lata
de uma simples pedinte sentada.
O sol dá-me conta do branco
das avenidas, do sujo das vielas
perdidas, do verde das árvores
dos jardins, do amarelo dos
autocarros que passam e do
azul, azul do Tejo.
Beijo-a. Finalmente,
Juntos vi Lisboa
Nascer-me na alma,
Vimos Lisboa
Unir-nos a alma.

Voltei a casa.
Deitei fora
os mapas
e a folha
dos retratos
da cidade.
Risquei a rima
e a métrica
dos poemas
e li-os à janela
gritando aos que passavam.
Parti o esquadro
e conheci-te
da única forma que sei.
Amei-te em Lisboa.

1999-09-10 
  Tempo de Liberdade

Em tempo de liberdade
Até as flores à beira da estrada
São bonitas.

(e os teus cabelos ao vento na manhã eterna)
(Em tempo de liberdade
O tempo passa mais depressa
Mas é eterno.)

Em tempo de liberdade...

Nunca vivi em tempo de escravatura
Mas lembro-me que era proibido sorrir
E as flores à beira da estrada eram bonitas
Mas estavam sempre a meio caminho de morrer.

E não havia manhãs de sol
Na praia deserta ao pé do mar azul e céu imenso
Entre rochas altas e castanhas e falésias escarpadas
O teu sorriso e o meu sorriso
E os nossos corpos e almas
Tão belos como a brancura algarvia das casas
Na manhã mediterrânica de luz pura.

E se havia tudo isto era com certeza proibido.

Em dias de liberdade até
as coisas pequenas e mesquinhas
são bonitas como raios de esperança
de melhores dias.


2000-02-13
 
Poemas sobre Lisboa. Só e apenas. Por favor, enviem comentários para aformadalingua@mail.pt. Obrigado.

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